Artigo publicado originalmente em 5 de agosto, no jornal O Estado de S. Paulo.
Ademanda mundial por energia elétrica ainda é atendida, predominantemente, por combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral), num total em torno de 65%; complementados por outras fontes, as renováveis e a nuclear, que atendem aos demais 35%. Esse cenário evidencia o desafio em se encontrar um modelo que promova o atendimento aos três pilares da sustentabilidade: viabilidade econômica, garantia de fornecimento e redução de impactos ambientais.
Isso nos obriga a pensar não somente em termos de transição energética, com a incorporação de novas fontes de geração, mas também em termos de adição energética, ampliando a geração por parte das fontes já disponíveis, uma vez que a substituição pura e simples entre fontes não vai atender ao crescimento previsto da demanda.
Sob esse enfoque, o Brasil tem uma posição privilegiada, pois mais de 80% de sua necessidade é suprida por fontes renováveis, enquanto o restante provém de outras fontes, inclusive a nuclear.
No entanto, essa situação aparentemente confortável pode desaparecer se não forem feitas escolhas estratégicas adequadas. O potencial hidrelétrico do País está próximo da exaustão e a viabilidade de novas usinas está restrita à opção a fio d’água que, assim como outras fontes renováveis, enfrenta desafios de intermitência, uma vez que sua capacidade de produção é fortemente impactada por variações naturais nos padrões de chuva, no regime dos ventos e dos horários de radiação solar, o que dificulta a previsibilidade e a estabilidade do fornecimento, exigindo alternativas complementares para garantir a continuidade do abastecimento.
Em meio a essas opções é que não podemos deixar de considerar a energia nuclear como uma fonte confiável, com baixas emissões de CO2 e área reduzida ocupada pelas centrais nucleares. Somos obrigados a considerar também um outro parâmetro sobre o qual quase não se fala, referente à segurança física das instalações, o chamado deathprint, medido em fatalidades por mil gigawatt-hora gerado (Forbes, edição de junho de 2012). Analisando-se esse parâmetro, a energia nuclear é a que apresenta o menor impacto, cerca de 90 ocorrências/mil-GWh, mesmo assim predominantemente relacionadas não a acidentes radiológicos ou nucleares, mas sim a acidentes de trabalho na cadeia produtiva do ciclo do combustível.
E esse número é muito baixo, se comparado ao das fontes a carvão mineral, as quais registram 100.000 ocorrências/mil-GWh em todo o mundo, majoritariamente decorrentes de problemas respiratórios causados na população. Em seguida, vêm as hidrelétricas, com uma estatística de 1.400 ocorrências/mil-GWh, e depois dessas temos a solar, com 440 ocorrências/mil-GWh, e finalmente a eólica, com 150 ocorrências/mil-GWh, todas relacionadas também a acidentes de trabalho em suas cadeias produtivas. Esses são números desconfortáveis, mas é importante evidenciá-los junto à sociedade de tal forma a possibilitar uma avaliação criteriosa e transparente dos riscos e benefícios que envolvem cada uma das fontes disponíveis.
Outro aspecto fundamental que tem de ser analisado é quanto ao custo da energia fornecida, não somente com a geração, mas com a transmissão, a distribuição, a manutenção e a vida útil das respectivas instalações das plantas de produção. Mais uma vez a nuclear aparece com algumas vantagens em relação às demais. Sua localização é quase integralmente discricionária, podendo ser instalada em qualquer lugar, o que não ocorre com as fontes renováveis, que sempre acrescentam custos significativos de transmissão. A vida útil inicial de uma usina nuclear é de 60 anos, podendo ser estendida por mais 20 ou 40 anos, antes de ser descomissionada, a partir da substituição de alguns componentes. E mais, uma vez descomissionada, a remediação do local é um processo quase natural, sem a necessidade de grandes intervenções de engenharia, justamente em função da pouca área ocupada pela usina.
Completando esse quadro favorável, e tomando-se o custo do MWh gerado, a nuclear tem outra grande vantagem. Em torno de 80% do valor da tarifa corresponde à amortização do investimento, ou seja, é a parcela destinada a honrar os compromissos financeiros incorridos com a construção e que são amortizados, em média, em 18 anos. Por outro lado, o custo de operação, incluindo o combustível e a manutenção, corresponde a menos de 20% da tarifa, o que significa que, após 18 anos de operação, a tarifa pode ser reduzida em 80%, igualando-se ao custo médio estimado para as eólicas e solar, mantendo-se nesse patamar pelos 40 anos seguintes de operação e com outra vantagem, sem intermitência, ou seja, geração contínua, no regime de 24 horas, sete dias da semana e 11 meses por ano (descontando-se um mês de parada para manutenção), o que possibilita um fator de disponibilidade acima de 85%, muito superior aos 40% ou 60%, em média, das renováveis. Por esse ângulo, as usinas nucleoelétricas são as que apresentam o menor custo de geração, por MWh.
Francisco Rondinelli - Presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear

