Inauguração do reator IPEN/MB-01, em 28 de novembro de 1988, com a presença de personalidades do setor de energia nuclear, como o professor José Goldemberg (primeiro à direita) e Marcello Damy (ao lado), fundador do IPEN. Ao microfone, o superintendente do Instituto, Claúdio Rodrigues. Acervo: Arquivo IPEN.
Em 1988, ano da promulgação da Constituição Brasileira atualmente em vigor, o IPEN também teve muito o que comemorar. Em 28 de novembro, foi inaugurado o reator nuclear de pesquisa IPEN/MB-01, após atingir sua primeira criticalidade no início daquele mês. Desenvolvido em parceria com a Marinha do Brasil (daí o MB no nome), o reator foi concebido com tecnologia integralmente nacional sob a condução da Divisão de Física de Reatores do Instituto – atual Centro de Engenharia Nuclear –, então chefiada por José Rubens Maiorino, doutor em engenharia nuclear nos Estados Unidos.
Segundo o professor Marcelo Linardi, o desenvolvimento do IPEN/MB-01 mobilizou equipes do Instituto em diversas etapas do projeto: “(...) a parte neutrônica, blindagem, instrumentação nuclear, bem como seus sistemas auxiliares. (...). Além disso, o Instituto participou ativamente no comissionamento deste reator. Os grupos experimental e operacional desse projeto acompanharam e fizeram a primeira criticalidade do reator IPEN/MB-01, e também previram, experimentalmente, a sua massa crítica de combustível e a posição crítica das barras de controle do reator. (...)” (Linardi, 2016, p. 47).
Classificado como um reator de potência zero, destinado principalmente aos estudos de física de reatores e à formação de especialistas na operação dessas instalações, o IPEN/MB-01 representou um importante avanço para o setor nuclear brasileiro e tornou-se estratégico para a realização de experimentos e para validação de cálculos neutrônicos. A sua relevância seria reafirmada ao servir de base para simulação e validação dos cálculos empregados no projeto do primeiro submarino brasileiro de propulsão nuclear, consolidando seu lugar entre os marcos da história da energia nuclear no país.
Enquanto o Instituto celebrava esse importante avanço tecnológico, o Brasil vivia outro momento decisivo de sua história. Promulgada pouco mais de um mês antes da inauguração do IPEN/MB-01, a nova Constituição estabeleceu o monopólio da União sobre as atividades nucleares, determinando que elas fossem desenvolvidas exclusivamente para fins pacíficos e vedando qualquer utilização de natureza bélica. Inserido nesse novo marco constitucional, o Instituto reforçou sua atuação em áreas estratégicas próprias, como a medicina nuclear, a produção de radiofármacos, a tecnologia das radiações, a preservação ambiental e a geração de energia limpa.
Paralelamente aos avanços da engenharia nuclear, o IPEN consolidava outra de suas vocações históricas, a produção de radiofármacos. Essa atividade, que permanecia sob monopólio estatal até 2022, já apresentava resultados expressivos ao final da década de 1980, quando foram produzidos pela primeira vez, em 1987, o gálio-67 e o iodo-123. A fabricação em série desses radioisótopos foi viabilizada pelo acelerador ciclotron de 24 MEV, instalado no IPEN em 1978. Conhecido como modelo CV-28, o equipamento inaugurou a sua operação com a produção do gálio-67, ampliando significativamente a oferta de radiofármacos para a medicina nuclear brasileira.
Atualmente, o IPEN permanece como um dos principais pilares da medicina nuclear brasileira, sendo responsável pela produção e distribuição de aproximadamente 85% a 90% dos radiofármacos utilizados no país. Sua produção abastece mais de 400 hospitais e clínicas para cerca de dois milhões de procedimentos médicos realizados anualmente.
A consolidação dessas diferentes competências, da engenharia nuclear à produção de radiofármacos, preparou o Instituto para uma nova etapa de sua história. Ao ingressar na década de 1990, o IPEN ampliaria sua interação com o setor produtivo e responderia a novas demandas da sociedade brasileira, em um contexto marcado por profundas transformações econômicas, sociais e institucionais.
Referências:
GORDON, Ana Maria Pinho Leite. Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, 1956-2000: um estudo de caso à luz da ciência, da tecnologia e da cultura brasileira. 2003. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.
LINARDI, Marcelo (org.). O IPEN e a inovação tecnológica: passado, presente e futuro. São Paulo: SENAI-SP, 2016. (Inovação e tecnologia).

