- Núcleo do Reator de Pesquisa IPEN/MB-01, com os elementos combustíveis de dióxido de urânio (UO₂). Acervo: IPEN/CNEN. Fotografia: Marcello Vitorino.
O ano de 1984 representa um marco na trajetória da independência tecnológica do Brasil no campo do enriquecimento de urânio. Foi quando entrou em operação a primeira conexão em série de ultracentrífugas, formando uma minicascata capaz de demonstrar a viabilidade da tecnologia nacional. Desenvolvido pelo Programa Nuclear da Marinha (PNM), por meio do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), esse avanço contou com expressivo apoio científico, institucional e de infraestrutura do IPEN. Esse foi um dos resultados do convênio firmado entre a Marinha do Brasil e o Instituto no início da década de 1980.
Embora os resultados tenham permanecido sob sigilo naquele momento, eles vieram a público em 1987 durante a inauguração da primeira cascata de ultracentrífugas construída no país, nas instalações do CTMSP/Aramar, em Iperó/SP. Na ocasião, o presidente da República anunciou oficialmente que o Brasil havia alcançado o domínio do ciclo do combustível nuclear.
Paralelamente às atividades ligadas ao enriquecimento de isótopos, o IPEN prosseguiu ampliando suas atividades em outras etapas do ciclo. Com base na experiência acumulada desde a década de 1960, o Instituto iniciou, em 1984, a reconversão do hexafluoreto de urânio (UF₆) em tricarbonato de amônio e uranilo (TCAU) e projetou uma unidade piloto de produção de pastilhas de dióxido de urânio (UO₂). No ano seguinte, tiveram início os testes operacionais da instalação. O objetivo era fornecer esse material para uso como combustível destinado ao núcleo do reator de potência zero IPEN/MB01, cuja construção havia sido iniciada em 1983.
Além dessas iniciativas com a Marinha do Brasil, o IPEN deu continuidade às pesquisas sobre o processamento de materiais irradiados. Nessa área, os estudos institucionais tiveram à sua disposição amostras de plutônio cedidas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Segundo Ana Gordon (2003), em 1984, o Instituto contava com cerca de 1.500 funcionários e acumulava avanços no enriquecimento de urânio, na produção de combustível nuclear, no processamento e reprocessamento de materiais irradiados, na produção de radiofármacos, na proteção radiológica, na formação educacional, no consumo de milhares de horas de operação do reator IEA-R1 pelos pesquisadores e demais frentes, consolidando as bases científicas e tecnológicas que sustentariam uma nova etapa de sua trajetória.
Nos anos seguintes, esse conjunto de competências encontraria uma de suas expressões nacionais mais amplas com a inauguração e a entrada em operação do reator de potência zero IPEN/MB01, em 1988, o primeiro com tecnologia totalmente brasileira.
Referências:
Ministério de Minas e Energia/Comissão Nacional de Energia Nuclear, Relatório 1984. Disponível: https://acrobat.adobe.com/id/urn:aaid:sc:US:2cec57f1-b5e8-48f4-9fbc-6f7aee65405a.
GORDON, Ana Maria Pinho Leite. Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, 1956-2000: um estudo de caso à luz da ciência, da tecnologia e da cultura brasileira. 2003. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.

