Tocando Agora: ...

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA É TEMA DE DEBATE

Publicada em: 06/05/2026 07:04 -

Por que a ciência interessa pouco aos brasileiros? Qual é o impacto das fakenews? Como distinguir divulgação científica e informação científica? Como as redes sociais abordam a ciência? Qual é o papel dos jornalistas e dos departamentos de comunicação das instituições científicas? Estas foram as principais questões levantadas durante a mesa-redonda “Divulgando a informação científica para a sociedade”, que aconteceu em 30 de abril no auditório do IPEN-CNEN. Participaram do evento os jornalistas Victor Ramos (Instituto Butantan), Theo Ruprecht (Ciência Suja), Daniela Klebis (SBPC) e Marco Piva (IPEN).

As apresentações mostraram que o desafio de levar informação científica à sociedade é imenso por conta do protagonismo das redes sociais como principal meio de informação da atualidade e, principalmente, pelo prejuízo do senso crítico promovido pelas fakenews que distorcem, confundem e criam narrativas falsas e amedrontadoras. O remédio para esse difícil momento que vive o Brasil e o mundo é a transparência, a qualidade da informação e a persistência para superar a sensação de que se está “enxugando gelo”.

Instituto Butantan

Victor Ramos trouxe a experiência de dois casos emblemáticos. O primeiro foi o recente lançamento da vacina em dose única contra a dengue, que representa um dos principais avanços da ciência brasileira. Inédita no mundo, a vacina passou por várias etapas de pesquisa até chegar a um resultado de eficácia comprovada. A imprensa tratou o assunto com grande destaque e informações adequadas.

O segundo caso, esse mais desafiador, foi a criação da Coronavac, a vacina contra a Covid-19, que aconteceu em tempo recorde para os padrões normais de verificação de eficácia. No prazo de praticamente um ano, a vacina começou a ser disponibilizada para enfrentar a mais terrível epidemia contemporânea da humanidade. O caminho não foi fácil porque a onda negacionista, que incluiu até mesmo médicos, pesquisadores e governantes, insistia que se tratava de uma doença menor, uma “gripezinha”.

A pressa de encontrar uma solução não afetou a qualidade do trabalho desenvolvido pelo Butantan e a vacina foi a primeira a ser aplicada na população. A dose número um foi aplicada em 17 de janeiro de 2021 na enfermeira Mônica Calazans, que atuava no combate à doença no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. O fato gerou enorme alegria e expectativa no Brasil. Apesar disso, o país registrou um número superior a 700 mil mortes, uma das mais altas taxas do mundo na comparação com a população de outras nações. O dado mais recente do Ministério da Saúde (junho de 2025) indicou 716.238 óbitos pela Covid-19.

SBPC

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, fundada em 1948, tem realizado um grande esforço para a divulgação científica que alcance um número maior de pessoas. Segundo Daniela Klebis, são várias as iniciativas: Jornal da Ciência, JC Notícias, Ciência & Mulher e Ciência & Cultura, além de outras publicações e prêmios que estimulam a informação científica.

Apesar desse esforço, a ciência é pouco conhecida dos brasileiros. Uma pesquisa realizada com pessoas que circulam na zona oeste de São Paulo, nas proximidades da Universidade de São Paulo, revelou que quase ninguém conseguiu citar uma instituição científica exatamente na região onde elas mais existem. Outra pergunta da pesquisa foi reveladora. Ao pedir a indicação de um cientista brasileiro, a maioria respondeu que era Albert Einstein...

Mas, o grande desafio atual são as redes sociais que proliferam narrativas falsas e comprometem o avanço da ciência. Sem regulamentação, o mundo digital se torna uma terra de ninguém, o que favorece as chamadas bigtechs. Como não existe um filtro que separa a mentira da verdade, os algoritmos são direcionados para aumentar a audiência das postagens que aguçam a curiosidade acrítica e promovem a intolerância típica das bolhas. A Inteligência Artificial potencializa essa instrumentação. Assim, a informação científica de qualidade é silenciada. Sem mediação não existe debate nem pluralidade de pontos de vista.

Ciência Suja

A ideia de ter um conteúdo sobre ciência num formato que chamasse a atenção do público sem fazer concessão à superficialidade foi o desafio que Théo Ruprecht e seus colegas se propuseram ainda em meio a pandemia. Com linguagem simples, bom humor e contando com o apoio de cientistas e intelectuais renomados, o Ciência Suja conseguiu um patrocínio inicial e foi lançado em 2021.

De lá para cá, a principal tarefa da plataforma é informar com qualidade e desconstruir notícias que são divulgadas de “cabeça pra baixo”, sem a necessária e prudente contextualização. O Ciência Suja se transformou numa referência crítica daquilo que deve ser a divulgação científica que alcança a sociedade. Os podcasts produzidos são acompanhados por milhares de seguidores.

Para saber mais sobre o trabalho dessas instituições, acesse:

www.butantan.gov.br
www.portal.sbpcnet.org.br
www.cienciasuja.com.br

 

 

Marco Piva - CNEN/IPEN

Comunicações e Transparência Pública
 
 
Tags: São Paulo
Compartilhe: x
GOVERNO